E às vezes, hei-las de volta. As memórias.
De forma insuspeita, começam por insinuar-se. A tempos, surgem, por vezes camufladas. Mas não tardam a fazer-se sentir em toda a sua força.
Seria de pensar que o tempo tudo apaga, que o virar das páginas no calendário tudo faria esquecer, e que no máximo ficariam algumas lembranças baças, como fotografias amarelecidas.
E surpreende-me ver que não. Que ainda que as recalquemos, as memórias sempre hão-de encontrar um espaço por onde espreitar e visitar-nos.
Há semanas que não me largam. E os cinco sentidos despertam da letargia.
É engraçado que as memórias auditivas sejam as primeiras a surgir, e a fazer lembrar as restantes. Lembro-me de todas as músicas,de cada momento, do que significavam. São indissociáveis de uma época...
E lembro-me de ti. Das conversas infindáveis, dos planos audaciosos - crescentemente audaciosos - que traçávamos, como se só nós existíssemos e o mundo estivesse nas nossas mãos e nada mais interessasse.
Tenho tantas saudades desses tempos. E de ti. De quem eras. Talvez também tenha saudades da pessoa que era (mas é mais fácil fazer de ti o bode expiatório).
E sempre que estas memórias me invadem penso que nunca chegámos a ter uma conversa, nunca dissemos honestamente por que é que correu mal e por que é que não continuámos os dois juntos, contra o mundo. Há tanta coisa que te queria perguntar...
E claro, tudo finda com mais uma lembrança musical (e com a dúvida sobre se ainda te lembrarás desta) - porque, no fundo, tudo se resume a isso.
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