Às vezes há descobertas musicais (fortuitas qb) que nos fazem questionar por que é que desperdiçamos tanto tempo a ouvir outras coisas...
Nick Drake é um desses casos.
Descobri Nick Drake há relativamente pouco tempo, graças ao conselho de um amigo com um gosto musical infalível, e que ao longo destes anos de amizade me deu a conhecer algumas das pérolas musicais que me têm acompanhado desde então.
No entanto, Nick Drake é um caso diferente.
A dimensão trágica da sua morte (o artista atormentado, que foge da ausência de reconhecimento do seu génio), a aparente simplicidade das melodias, que ao mesmo tempo carregam uma nostalgia e uma doçura inigualáveis, a melancolia das letras, o virtuosismo da parte instrumental, a voz de Drake e a beleza que resulta de todo o conjunto, tornam-no algo quase etéreo.
O primeiro contacto com a música de Drake foi através de River Man, que permanece uma das minhas músicas preferidas. E que deixou vontade de conhecer mais e mais, pelo que me embrenhei na discografia e nas gravações não editadas.
Five Leaves Left é, sem dúvida, um clássico intemporal, que merecia ser muito mais conhecido e que nos deixa a questionar a justiça de tantos 'tops' e rankings de melhores discos, músicas, etc etc. Time Has Told Me, River Man e, principalmente, Cello Song, são autênticas obras de arte.
Contudo, a música que mais vezes me faz regressar a Nick Drake é bem menos conhecida e emblemática.
'They're leaving me behind' é uma das gravações inéditas à data da morte de Drake, que mais tarde viria a ser incluída no álbum póstumo 'Family Tree'.
O negrume, a desilusão e desencanto que transmite envolvem-me e levam-me para longe. Para os pensamentos que evito mas que, mais cedo ou mais tarde, tenho de enfrentar. E há momentos - mais do que aqueles que desejaria - que parecem tê-la como banda sonora. Momentos em que espontaneamente me lembro dela, me identifico como aqueles versos e aquela melodia triste.
Assim têm sido os últimos dias.
Há momentos de viragem que são particularmente tristes, particularmente duros. E em que parece que há uma força maior do que nós que nos contraria, que nos repele, que nos impede de avançar. E a dor maior é ver que ficamos sozinhos no impasse, abandonados no nada fazer.
O mundo avança mas nós não.
They're leaving me behind...
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